“CIDADE DOS SONHOS” – O mistério por trás de tudo
Dois homens conversam em uma lanchonete. Um deles descreve um sonho que teve mais de uma vez. É um pesadelo que o faz sentir medo. Naquele mesmo local, percebe que um homem está ali atrás e ele provoca todos aqueles sentimentos. Apesar de a sequência parecer deslocada de todo o restante, pode ser uma das sínteses de CIDADE DOS SONHOS. Quem está por trás de tudo? Que sensação de mistério é essa? Do que se trata o filme? Por que a narrativa se transforma para algo aparentemente desconexo? Os questionamentos podem ser tentadores para ir em busca de respostas decifradas. No entanto, o diretor David Lynch e as leituras mais sofisticadas propõem mais perguntas do que soluções.

No princípio, a trama pode parecer convencional e convidar a uma resolução fechada. Um acidente de carro em Mulholland Drive (título original da obra) dispara uma série de acontecimentos que entrelaçam personagens distintos. Rita escapa da colisão sem memória e se refugia em um apartamento para onde está indo Betty. Esta é uma aspirante atriz recém-chegada em Los Angeles, que passa a ajudar Rita a descobrir sua identidade. Enquanto isso, o cineasta Adam Kesher é pressionado por indivíduos suspeitos a escalar Camila Rhodes como atriz principal de seu filme. Com o passar do tempo, o que poderia ser tradicional é deixado de lado em favor de experimentalismos variados.
David Lynch é conhecido por trabalhos que desafiam a lógica racional e dialogam com o surrealismo, como “Império dos sonhos“, “Eraserhead” e “Estrada perdida“. Em outros momentos, o diretor trabalha com uma abordagem clássica do cinema comercial, como “O homem elefante” e “Uma história real“. Em “Cidade dos sonhos“, é possível sentir referências temáticas e estilísticas ao seu próprio “Veludo azul” e a “Persona” de Ingmar Bergman. Os dois títulos abordam, cada um ao seu modo, a ambiguidade das imagens projetadas pelos indivíduos sobre si mesmos e sobre seu mundo. O trabalho anterior de David Lynch ecoa na representação crítica de uma face sombria do sonho hollywoodiano e a obra do realizador sueco ecoa na caracterização dúbia de suas protagonistas, envoltas por máscaras e paralelismos em suas identidades. Tais diálogos norteiam uma das dúvidas colocadas pela narrativa: quem está atrás da lanchonete provocando aqueles eventos e sentimentos?
Se a pergunta for analisada apenas pela dimensão factual da trama, é possível identificar críticas à indústria cultural representada por Hollywood. Destaca-se, primeiramente, a perda de autonomia de Adam Kesher para escolher a atriz de seu filme, algo que o faz se tornar um alter ego de David Lynch (não apenas pela caracterização física ser similar, mas também pela trajetória do diretor ser marcada pela experiência de não ter direito ao corte final de “Duna” de 1984). Justin Theroux interpreta o personagem como um sujeito que até tenta se empoderar para preservar sua liberdade criativa, mas é engolido pelas estranhas pressões externas feitas por irmãos italianos de terno e um caubói interiorano para escalar Camila Rhodes. À medida que a narrativa se debruça sobre a questão de jovens atrizes dando os primeiros passos na carreira, o triunfo pelo talento perde espaço para interesses escusos de poderosos. No universo diegético, tais interesses podem ser encarados como uma conspiração enigmática a serviço de mafiosos perigosos. No subtexto crítico, pode ser uma alusão às interferências de produtores empenhados em obter a maior margem de lucros possível.
Então, quem está por trás de cada acontecimento e sensação como citado na cena do sonho são os produtores ou grandes corporações lícitas ou não? Se a ideia for analisar as possibilidades criativas de um artista, será sempre possível encontrar brechas por onde sua sensibilidade se manifesta. O homem por trás das cortinas, operando tudo, pode ser o diretor que imprime seu estilo à narrativa à revelia ou não de interesses comerciais. Dessa forma, David Lynch combina uma encenação clássica com aspectos oníricos, experimentais, surrealistas. Os gêneros cinematográficos são diversos, partindo do noir e chegando ao romance, ao melodrama, à comédia e ao terror, sendo que cada um deles tem suas bases e códigos desconstruída. Ao mesmo tempo, a trama se abre para eventos e sequências que não precisam obedecer uma relação de causa e efeito com o que já foi visto ou com o que será mostrado. O roteiro se permite encadear a conversa dos homens na lanchonete, o susto com a aparição de um homem em situação de rua, os erros de um assassino de aluguel, a descoberta de uma traição e a ameaça feita por um caubói com os núcleos centrais.
As revelações dos mistérios em torno da escalação da atriz, da verdadeira identidade de Rita e das opções estéticas da produção podem ainda seguir outro caminho. O responsável por tudo isso pode não ser os interesses comerciais de figuras externas ou as decisões criativas de um autor, mas a própria experiência sensorial do cinema. Ao invés de priorizar uma lógica racional e explicações definitivas, a arte convida o público a liberar emoções viscerais e criar um envolvimento corpóreo com as imagens. Por isso, o filme não se limita a uma verdade absoluta a ser decifrada. Cada sequência e subtrama propõe um estímulo emocional distinto, que independe de um esclarecimento pela razão. A narrativa consegue evocar muito bem o susto típico do terror quando um jump scare revela o homem em situação de rua, o humor absurdista quando o assassino profissional comete muitos erros em um serviço, a curiosidade quando Betty e Rita começam a investigar o acidente de carro e as recordações de uma delas e o sofrimento quando um melodrama se coloca na relação entre as duas.
O trabalho de Angelo Badalamenti na trilha sonora certamente contribui para a criação de diferentes possibilidades sensoriais. Desde a sensação de sonho ou de pesadelo que se estabelece pelas ruas de Los Angeles até as variações de sentimentos que acompanham as protagonistas, tudo é conduzido pelos arranjos do músico. Um exemplo muito expressivo fica por conta da sequência no Clube Silêncio, outra síntese visual e sonora da proposta do filme. Betty e Rita assistem à abertura do anfitrião e a performance da canção “Chorona de Los Angeles“, tendo contato com a ideia de que tudo pode ser uma ilusão criada por alguém e, ainda assim, despertar fortes emoções. Imagem e som podem se desencontrar, o que se vê e o que se ouve podem ser artificialmente colocados por um indivíduo desconhecido e as identidades se transformam. Em diversos momentos, um jogo de duplos se manifesta e dá o tom das atuações de Naomi Watts e Laura Harring. Não há certezas absolutas sobre quem elas são, como se relacionam e quais são os sentidos implícitos dos diálogos.
As sequências compreendidas entre a saída do Clube Silêncio e a chegada a um jantar sofisticado podem gerar reações opostas nos espectadores e novamente sintetizarem “Cidade dos sonhos“. Alguns podem reagir com frustração, acreditando que a reviravolta mais confunde do que explica e pretende ser apenas apelativa. Outros podem investigar os detalhes visuais e narrativos para tentar decifrar o que realmente estava ocorrendo e não poderia ser percebido em virtude das tensões entre sonhos, medos, desejos e embates internos das personalidades das protagonistas. De qualquer maneira, David Lynch não está interessado em explicar tudo nem oferecer um mosaico coerentemente fechado. O que representa o casal de idosos que seguem Betty? A subjetividade da personagem contamina a “resolução” do mistério? O que é o Clube Silêncio? Nada disso apresenta uma resposta única. E o sonho citado no início desse texto? É uma metáfora para uma crítica aos produtores, a reafirmação do estilo de autores ou para a valorização da experiência emocional com a arte? Talvez nenhuma dessas seja a resposta, já que por trás das cortinas pode ainda haver o mistério de uma mulher de cabelo azul que anuncia o silêncio final.
