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“SEX” – A complexidade do desejo

O que define a identidade de um homem? O que diferencia uma vivência isolada de um reflexo mais profundo de sua essência? SEX propõe a explorar esses questionamentos através de uma narrativa introspectiva e bem-humorada. A produção norueguesa examina como dois homens, ambos em casamentos heterossexuais, enfrentam situações que os forçam a repensar não apenas suas orientações sexuais, mas também suas relações com o gênero e o próprio olhar social sobre a masculinidade. Com um tom delicado e repleto de nuances, o filme se distancia de discursos categóricos e evita qualquer moralização sobre os dilemas de seus protagonistas. Em vez disso, aposta em diálogos afiados e momentos de silêncio que dizem tanto quanto as palavras, criando uma experiência que convida o espectador a refletir. Sua abordagem sutil e despretensiosa, aliada a um humor discreto, faz com que o longa se aproxime mais da realidade e das incertezas da vida cotidiana, en que nem sempre há respostas definitivas para questões tão complexas.

A trama acompanha dois protagonistas em jornadas distintas, mas complementares. Um deles, um homem de meia-idade que sempre levou uma vida convencional, tem um encontro sexual inesperado com outro homem, mas se recusa a classificá-lo como um ato homossexual ou uma traição. Para ele, a experiência não altera sua identidade, apenas existe como um evento isolado, sem consequências para sua visão de si mesmo. No entanto, quanto mais tenta ignorar o episódio, mais ele percebe como sua visão sobre o próprio casamento e sua sexualidade passa a ser influenciada por esse momento. O outro personagem, por sua vez, é atormentado por sonhos eróticos frequentes com David Bowie, o que o leva a questionar até que ponto sua própria personalidade foi moldada pelo desejo de corresponder às expectativas alheias. A inquietação cresce conforme ele revisita sua trajetória, reconhecendo como pequenas escolhas ao longo da vida podem ter sido guiadas por uma necessidade inconsciente de reafirmar sua heterossexualidade.

(© Imovision / Divulgação)

O diretor e roteirista Dag Johan Haugerud conduz a história com um olhar contido e observacional, permitindo que os personagens possam revelar suas angústias em conversas casuais e momentos de silêncio eloquente. O roteiro evita grandes confrontos ou revelações explosivas, apostando em nuances e sutilezas para explorar suas temáticas. Jan Gunnar Røise e Thorbjørn Harr entregam performances introspectivas e bem calibradas, capturando a complexidade de homens que resistem à necessidade de definir suas próprias identidades. A trilha sonora, sempre muito bem escolhida, reforça essa atmosfera contemplativa, enquanto os planos abertos surgem como pausas narrativas, permitindo ao espectador absorver cada diálogo e refletir sobre o peso das palavras ditas — e das que permanecem em silêncio.

A força de “Sex” reside na maneira como subverte as expectativas sobre a identidade masculina. O filme questiona o que significa “ser homem” em uma sociedade que impõe normas rígidas sobre gênero e sexualidade. Os protagonistas não são retratados como figuras em crise desesperada, mas sim como indivíduos que, entre a confusão e a auto aceitação, tentam compreender os próprios sentimentos sem rotulá-los de forma definitiva. A discussão sobre o desejo e a identidade se desenvolve com uma leveza que equilibra humor e introspecção, evitando dramatizações excessivas.

Apesar de sua abordagem instigante, o filme não está isento de limitações. A narrativa lenta pode afastar aqueles que buscam um desenvolvimento mais dinâmico, e alguns momentos parecem hesitar em aprofundar certos dilemas psicológicos apresentados. No entanto, esses pequenos deslizes não comprometem o impacto geral da obra, que se mantém intrigante até o último momento.

O longa se estabelece como uma análise refinada sobre masculinidade e identidade em tempos modernos. Com um olhar cuidadoso e uma abordagem que valoriza a ambiguidade, o filme oferece uma perspectiva singular sobre casamento, desejo e a complexidade das emoções humanas. Ao final, a obra não busca definir respostas, mas sim ampliar as possibilidades de interpretação, deixando no espectador uma inquietação que, talvez, seja justamente o que a narrativa deseja provocar. Seu humor seco e suas pausas narrativas podem desafiar a paciência de quem espera uma história mais convencional, mas fazem parte da identidade da obra.. Assim como seus personagens, “Sex” não busca se encaixar em rótulos fáceis, preferindo permanecer em um espaço de indefinição que, paradoxalmente, se torna seu maior mérito.