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“LOVE” – As incertezas do amor moderno

O amor, com sua imprevisibilidade e nuances, sempre foi um tema recorrente no cinema, abordado das mais diversas formas, desde paixões arrebatadoras até relações marcadas pela introspecção. Entre narrativas que romantizam o encontro perfeito e outras que exploram a efemeridade dos sentimentos, poucos filmes se propõem a examinar o amor com a complexidade e sutileza que LOVE busca apresentar. Fugindo dos clichês tradicionais, a obra investe em uma abordagem mais naturalista e observacional, acompanhando os desafios e inseguranças que permeiam as conexões humanas. A trama se aprofunda nas incertezas dos relacionamentos modernos e questiona a rigidez das convenções sociais, explorando a linha tênue entre desejo, liberdade e compromisso.

A trama acompanha uma médica pragmática e bem-sucedida na casa dos 40, que ao longo dos anos evitou se prender a convenções românticas. Sua vida toma um rumo inesperado quando conhece um enfermeiro que preza por encontros casuais e acredita que a profundidade de uma relação não depende de seu caráter duradouro. Intrigada por essa visão distinta da sua, ela se permite explorar essa possibilidade, testando seus próprios limites e crenças sobre o amor.

(© Imovision / Divulgação)

Dirigido e roteirizado por Dag Johan Haugerud, “Love” se destaca por sua abordagem intelectual e pela atenção aos pequenos gestos. O filme constrói sua narrativa por meio de diálogos introspectivos, aproximações tímidas e interações que parecem banais à primeira vista, mas que carregam camadas de significado. Há uma delicadeza evidente na forma como as relações são apresentadas, permitindo que o espectador mergulhe nos conflitos internos dos personagens. No entanto, essa mesma característica pode ser um obstáculo para quem busca um envolvimento mais visceral. Algumas cenas, embora belas, carecem de um impacto emocional mais forte, o que pode criar um distanciamento entre a obra e o público.

Andrea Bræin Hovig entrega uma performance contida e precisa como Marianne, transmitindo com sutileza as mudanças que sua personagem experimenta ao longo da narrativa. Já Tayo Cittadella Jacobsen, como Tor, confere ao personagem uma leveza que contrasta com a rigidez inicial da protagonista. A química entre os dois é convincente, mas não arrebatadora, o que reforça a ideia de que o filme aposta mais na observação do que na intensidade sentimental. O elenco de apoio, composto por Marte Engebrigtsen, Thomas Gullestad e Lars Jacob Holm, complementa a trama sem grandes destaques individuais.

Visualmente, o filme adota um estilo naturalista que dialoga bem com sua proposta. A fotografia aposta em tons suaves e enquadramentos discretos, reforçando a sensação de realismo. A ambientação em Oslo adiciona um pano de fundo interessante, com cenas que capturam a cidade em meio aos preparativos para o aniversário de sua fundação. Esse detalhe, embora secundário, funciona como uma metáfora para a passagem do tempo e as transformações que ocorrem na vida dos personagens.

A trilha sonora merece destaque, funcionando como um elemento narrativo que adiciona profundidade às cenas. Assim como em “Sex”, outra obra que se beneficiou do uso cuidadoso da música, aqui a trilha se integra de forma orgânica, enfatizando momentos de introspecção e conexão entre os personagens.

Apesar de suas qualidades, “Love” não escapa de algumas fragilidades. O roteiro, por vezes, flerta com a superficialidade ao abordar a temática do amor sem se aprofundar totalmente em suas complexidades emocionais. O filme constrói um retrato interessante das incertezas dos relacionamentos modernos, mas em determinados momentos hesita em mergulhar de fato nessas questões. Há uma sensação de que algo poderia ser mais explorado, de que certas reflexões são apenas tangenciadas em vez de plenamente desenvolvidas.

No fim, é uma obra que se destaca pela autenticidade e pela forma sutil com que observa as relações humanas. É um filme bonito em sua simplicidade, divertido em sua identificação natural, mas que deixa no espectador a impressão de que faltou um pouco mais de profundidade para realmente marcar. A abordagem delicada e o trabalho competente do elenco tornam a experiência válida, mas aqueles que buscam um impacto emocional mais forte podem sentir que a história fica aquém de seu potencial.